quarta-feira, 6 de setembro de 2017

A PRINCESA LEOPOLDINA E AS AVES BRASILEIRAS

A princesa Leopoldina e as aves brasileiras

Aproveitando o momento em que a novela “Novo Mundo”, embora de forma jocosa, nos traz um pouco da história do Brasil em um período crucial para as mudanças que definiram os destinos da jovem nação, que segundo o historiador Laurentino Gomes, “um país que tinha tudo para dar errado”.
D Leopoldina. Retrato de Joseph Kreutzinger 1815

Na obra televisiva a princesa é interpretada pela atriz Letícia Colin.

Leticia Colin, caracterizada como D Leopoldina



Maria Leopoldina Josefa Carolina de Habsburgo, foi a primeira imperatriz brasileira, e ficou mais conhecida como a princesa Leopoldina. Casou-se com o príncipe D. Pedro I (no papel) em 03 de julho de 1817 e chegou ao Rio de Janeiro em 05 de novembro de 1817.
A princesa nasceu em 1797 na Áustria, filha do Imperador Francisco I. Possuía o sangue de uma das linhagens mais antigas da Europa, os Habsburgo.
O historiador Alberto Rangel escreveu sobre ela: “uma louraça feiarrona”.
A princesa além de virtuosa, culta, era uma intelectual apaixonada por mineralogia. Colecionava rochas, plantas, borboletas e outros animais. Na bagagem além do enxoval, presentes de casamento e todas aquelas coisas que as mulheres sempre carregam, trouxe uma biblioteca e as coleções de ciências naturais.
Na sua comitiva além das damas-da-corte, camareiras, pajens, mordomo, guarda pessoal e um capelão, a princesa trouxe a maior expedição cientifica que até aquele momento visitara o Brasil. Entre os sábios senhores estavam o mineralogista Johann Baptist Emmanuel Pohl e o bibliotecário Rochus Schuech que na verdade também era mineralogista!
Dizem os historiadores que a princesa desempenhou um papel fundamental na independência do Brasil. Era amada pelo povo especialmente por aqueles mais humildes e abandonados pela sorte. Chegou a endividar-se para não deixar acabar o programa de assistência social que mantinha.
Tal atitude deveria servir de exemplo para nossos governantes atuais que deixam os aposentados a míngua enquanto se locupletam com o dinheiro público!
        Mas e as aves?
        Pois é, a princesa trouxe 2 senhores que foram definitivos para a Ornitologia brasileira. O austríaco Johann Natterer e o alemão Johann Baptist von Spix. 

Johann Natterer


Johann Baptist von Spix

Junto com Spix veio também outro alemão, Karl Philipp von Martius, botânico que nos legou a inestimável “Flora Brasiliensis”. Estes três homens cortaram o Brasil de fora a fora durante duas décadas,

Karl Philipp von Martius



A obra "Flora Brasiliensis" está disponível como Flora Brasiliensis On Line no endereço www.florabrasiliensis.cria.org.br

A Spix devemos a descoberta de raridades como Nothocrax urumutum, um mutum de hábitos noturnos da região do alto Rio Negro (AM) e da ararinha-azul do noroeste da Bahia e sul do Piauí, batizada como Cyanopsitta spixii em sua homenagem. 

Nothocrax urumutum



Cyanopsitta spixii

Natterer coletou preciosidades como Dromococcyx pavoninus  e Columbina (Oxypelia) cyanopis.


 Dromococcyx pavoninus


Columbina cyanopis

A rolinha-do-planalto (Columbina cyanopis) embora tenho sido coletada por Natterer na região de Cuiabá, só foi descrita por Pelzeln em 1870 como Peristera cyanopis, revisada por Salvadori em 1893 como Oxypelia cyanopis.
Acreditava-se estar extinta, dada a escassez de informações. A ave era conhecida de poucas peles em museus, além das originais coletadas por Natterer.
Em 1904 Emílio Garbe coletou um macho em Itapura no noroeste de São Paulo. Depois só em 1940 foi coletado outro exemplar macho em Rio Verde, no sul de Goiás, por W. Garbe (filho de E Garbe). O mesmo W. Garbe em 1941 coletou uma fêmea adulta, na mesma região.
Passaram-se 75 anos sem notícias da ave, ate que em 2015 o ornitólogo Rafael Bessa a reencontrou em região de cerrado no interior de Minas Gerais. A população contada até o momento é de 12 indivíduos. A ave está criticamente ameaçada de extinção e a população está em declínio, segundo a IUCN. Para saber mais veja:


Embora um pouco melhor a história da ararinha-azul não é muito diferente. Coletada por Spix em 1819 na região próxima a cidade de Joazeiro (BA), foi descrita em 1832 por Wagler como Sittace spixii. Em 1854 Bonaparte nomeou a ararinha-azul como Cyanopsitta spixii, com base no material analisado por Wagler.
Em 1991 a ave de Curaçá (BA) foi considerada como o último indivíduo em vida livre, tendo desaparecido posteriormente em 2000, sendo considerada como extinta em natureza havendo, entretanto diversos exemplares em cativeiro, principalmente fora do Brasil.
Afortunadamente em 2016 foi avistado um individuo solitário na fazenda Caraibeira, na região de Curaçá (BA).

Veja o vídeo gravado pelas moradoras da fazenda.



video


Voltando aos naturalistas viajantes.

Johann Natterer nasceu em Luxemburg, perto de Viena em 09/11/1787. Quando chegou ao Brasil em 1817, era assistente no Museu de Viena, sendo considerado até hoje como um dos mais diligentes zoólogos colecionadores. Ao seu vasto conhecimento de naturalista unia uma extrema habilidade como caçador e uma apurada técnica como taxidermista. Era meticuloso na identificação do material que coletava, etiquetando cada exemplar e anotando em um diário todos os dados possíveis referentes a cada exemplar coletado.
Natterer trabalhou no Brasil de 1817 a 1835 e só não coletou no extremo sul e na faixa litorânea que vai do Rio de Janeiro até a foz do rio Amazonas. Natterer coletou 12.293 exemplares de aves representando 1.200 espécies.
Quando retornou a Áustria foi promovido a adjunto no Imperial Museu de História Natural de Viena, porém não teve tempo de avaliar e descrever o material que trouxera, pois faleceu em 17/06/1843. Por ironia do destino os manuscritos e desenhos que já havia preparado foram queimados no incêndio que destruiu o Museu de Viena em 1949.

Coube a outro ornitólogo, August von Pelzeln, um dos sucessores de Natterer no museu, publicar um livro em quatro volumes (entre 1868 e 1871) em que relatou os “Resultados das viagens de Johann Natterer”, procurando fazer justiça ao colega, respeitando sempre que possível as denominações dadas por ele.


Johann Baptist von Spix nasceu em 09/02/1781 em Aisch na Alemanha. Spix faleceu em Munique em 15/05/1826, com apenas 45 anos enfraquecido pela malária contraída no Brasil.
Spix chegou ao Brasil em 1817 acompanhado pelo botânico von Martius e aqui permaneceu até 1820, viajando pelo Rio de janeiro, Minas Gerais, Bahia, Piauí, Maranhão, Pará e Amazonas.
Spix e Martius saíram junto do Rio de Janeiro em 1817, com destino a Ipanema (MG), aonde chegaram em 1818. Daí cortaram Minas Gerais e penetraram no sertão baiano com destino a Salvador (BA), de onde partiram com destino ao Piauí, seguindo para o Maranhão. De São Luiz (MA) viajaram por mar até Belém (PA) e depois de um mês entraram no rio Amazonas, passando por Manaus e navegando até Tefé (AM). Spix e Martius separaram-se por um breve período, e voltaram a encontrar-se em Manaus, e após excursões pelo baixo rio Amazonas, retornaram para Belém, onde após dois meses de permanência, partiram de vez para a Europa, em junho de 1820.
Diferente de Natterer, Spix publicou os resultados do seu trabalho em dois volumes, um em 1824 e outro em 1825, nos quais descreveu 220 aves, sendo que apenas cerca de 100 eram realmente novas espécies. A coleção de Spix ficou exposta durante muitos anos no Museu de Munique, e só foi realmente objeto de estudo aprofundado quando o ornitólogo Hellmayr teve acesso a ela em 1905.


Dentro de cinco anos o Brasil comemorará 200 anos de independência, sem, entretanto demonstrar a maturidade que esperávamos. Até quando continuaremos dependentes das Côrtes estrangeiras?

Fica em nossa mente como um presságio a imagem do solitário urubu, testemunha daquele dia memorável, no canto superior esquerdo da tela “Independência ou morte” pintada por Pedro Américo em 1888.



Referências
Cyanopsitta spixii. Consultado em 02 de setembro de 2017. Disponível em: www.mma.gov.br
Derek Goodwin. Taxonomic notes on the american ground doves. Auk, 76(4): 510-516, 1959.
Flora Brasiliensis. Consultado em 02 de setembro de 2017. Disponível em: http://www.fapesp.br/publicacoes/flora/
Laurentino Gomes. A princesa triste. In: 1822 Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado. Editora Nova Fronteira, 2010, 352p.
Maria Leopoldina de Áustria. Consultado em 01/set/2017. Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_Leopoldina_de_%C3%81ustria
Olivério M de Oliveira Pinto. Novo catálogo das aves do Brasil. Primeira Parte. Empresa Gráfica da revista dos Tribunais. 446p, 1978.
Olivério Mario de Oliveira Pinto. Com a expedição Austríaco-Bávara de 1817, a investigação naturalística atinge o seu ponto alto. In: A Ornitologia do Brasil através das idades (século XVI ao século XIX). Empresa Gráfica da Revista dos Tribunais, 1979, 117p.
Olivério Pinto. Esboço monográfico dos Columbidae brasileiros. Arquivos de Zoologia do Estado de São Paulo, v.VII, art. III, p. 241-324, 1949.
Rolinha-do-planalto. Consultado em 02 de setembro de 2017. Disponível em: http://www.naturezaeconservacao.eco.br/2016/05/rolinha-do-planalto-e-fotografada-na.html

Urumutum. Consultado em 02 de setembro de 2017. Disponível em: http://www.hbw.com/ibc/species/nocturnal-curassow-nothocrax-urumutum



quarta-feira, 24 de maio de 2017

JACU-DE-ESTALO: UM PAPA-LÉGUAS BRASILEIRO


Quase todo mundo algum dia assistiu ao desenho animado do “Papa-léguas”, sempre as voltas com um coiote que tenta capturá-lo sem sucesso, baseado em animais reais nativos dos desertos do sudoeste americano. Em um deserto cheio de rodovias, o faminto Wylie Coiote sempre tenta capturar o Papa-Léguas, encomendando produtos ACME, uma empresa que fabrica de tudo. O Papa-Léguas passa todos os episódios ludibriando as tentativas do coiote em capturá-lo. Contando com astúcia, velocidade ou uma sorte absurda, o Papa-Léguas sempre escapa ileso de todas as artimanhas altamente criativas de seu arqui-inimigo, porque este sempre acaba pego por sua própria armadilha. Um fato curioso é que apesar do perseguidor nunca conseguir devorar seu oponente, em alguns episódios de Tom e Jerry, Ligeirinho, Frajola e Piu-Piu, eles acabam de uma maneira ou outra obtendo alguma vitória sobre seus rivais, entretanto com o Papa-Léguas o coiote jamais terminou um episódio triunfando de alguma forma. Curioso também é que os desenhos não têm diálogos, excluindo pelo "bip-bip" do Papa-Léguas e ocasionais placas escritas usadas pelo coiote para se comunicar com o público. 



Papa-Léguas e Wylie-Coiote

O “Papa-léguas” ou “Roadrunner” (Geococcyx californianus) é uma ave da família Cuculidae, que habita as áreas desérticas do sudoeste dos Estados Unidos e norte do México. É a ave símbolo do Novo México. Mede aproximadamente 56 cm de comprimento, com envergadura de 49 cm. É uma ave que voa pouco, preferindo correr. Apresenta uma faixa branca na região pós-ocular, uma pequena crista no alto da cabeça e uma longa cauda. Os sexos são semelhantes, sendo o macho um pouco maior. Alimentam-se principalmente de insetos, pequenos répteis, aranhas, escorpiões, pequenos pássaros e roedores. Pode atingir a velocidade de até 30 km/h. 


O Papa-Léguas (Geococcyx californianus)

Mas chega de Papa-Léguas e vamos ao Jacu-de-Estalo.

A família Cuculidae engloba aves como o papa-léguas, o cuco-europeu, o anu branco, o anu preto, o anu coroca, o peixe frito, entre outros, e também o Jacu-de-estalo (Neomorphus geoffroyi) de hábitos florestais e que busca alimento principalmente no solo, onde se desloca muito rapidamente.

O nome Jacu-de-Estalo vem dos estalos emitidos pela ave que lembram o som das matracas de madeira ou mesmo o estalar dos dentes do porco-do-mato. A sua vocalização se limita a roucos grunhidos, baixos, monossilábicos, que lembra os gemidos do mutum, ou a vocalização das pombas.

Para quem não conhece estes sons ouça em




O Jacu-de-estalo (Neomorphus geoffroyi)

Esta é a primeira foto que conheço do jacu-de-estalo. Foi publicado em um boletim do Museu de Biologia Mello Leitão, em 1976, pelo professor Augusto Ruschi (1915-1986), na Reserva Biológica de Sooretama (ES).

Para o gênero Neomorphus são reconhecidas quatro espécies: Neomorphus geoffroyi, N. squamiger, N. rufipennis e N. pucheranii. Para N. geoffroyi são aceitas seis subespécies.

Em 2012 foi registrada a presença de Neomorphus geoffroyi no bioma Caatinga, no município de Sento Sé (BA).

Veja mais detalhes na página do CBRO – Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos: https://www.facebook.com/pg/CBRObr/posts/?ref=page_internal

A subespécie aqui do sudeste é o Neomorphus geoffroyi dulcis, que ocorre na confluência dos estados de Espirito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Tem sido visto com maior frequência na Reserva Biológica de Sooretama (ES) e no Parque Estadual do Rio Doce (MG). Aqui no RJ, o ornitólogo Fernando Pacheco relatou a vocalização da ave no Parque Estadual do Desengano (o parque abrange os municípios de Santa Maria Madalena, Campos dos Goytacazes e São Fidélis).

Quando buscam alimentos os jacus-de-estalo correm pelo solo e saltam atrás dos insetos que levantam voo apanhando-os no ar. Capturam rapidamente aqueles que se esgueiram no meio da folharada. Grimpam pelos troncos em busca de pequenos lagartos e insetos. Esfacelam as presas batendo-as contra os troncos ou solo. As presas menores são esmagadas e engolidas inteiras. Durante as perseguições correm de forma desembaraçada pelo cipoal da floresta. Acompanham formigas-de-correição e formigas-de-fogo, aproveitando as presas que as formigas espantam. 

Vejam o vídeo em 

https://www.youtube.com/watch?v=BYIMbbK8RuE (jacu-de-estalo, Canopy Family, Youtube).

Até 1942 quando o Dr Helmut Sick (1910-1991) observou um casal do jacu-de-estalo acompanhado de um filhote, não se tinha certeza se essa espécie incubava seus ovos ou eram parasitas de ninhos como outras espécies de cuculídeos. O cuco europeu (Cuculus canorus) é um exemplo clássico, e entre nós o vira-bosta (Molothrus bonariensis) coloca seus ovos nos ninhos do tico-tico, do canário-da-terra, entre outras espécies, e vai embora deixando que os escolhidos incubem os ovos e criem os filhotes. Em alguns lugares do nordeste de Goiás chamam o vira-bosta de Maria-vadia. 

A Maria-vadia está tão bem adaptada ao parasitismo de ninho, que é capaz de alterar o formato e a coloração dos ovos em função do hospedeiro escolhido. Mas isso é papo para outra ocasião.

Um ninho de jacu-de-estalo localizado em um tributário do rio Aripuanã no norte de Mato Grosso, estava construido em uma forquilha de um arbusto a 2,5 metros de altura. Era construído de grandes galhos e tinha uma câmara plana. O fundo estava forrado com folhagem seca coberta com folhas verdes. O diâmetro do ninho era de 25 cm e o diâmetro da câmara de 12 cm. Durante a incubação o fundo do ninho estava sempre coberto com folhas frescas. A postura observada neste ninho era de um único ovo de coloração branco amarelado sem manchas.

A espécie Neomorphus geoffroyi é considerada vulnerável no Livro Vermelho da Fauna Ameaçada de Extinção, da IUCN (União Internacional para Conservação da Natureza). A subespécie não consta da lista da IUCN. 

No Brasil Neomorphus geoffroyi dulcis é considerada ameçada.

Segundo a IUCN o tamanho da população global não é conhecido, porém a espécie é considerada rara. Suspeita-se que a espécie perderá cerca de 25% de habitat apropriado na sua área de distribuição dentro de três gerações (+/- 13 anos) com base no modelo de desflorestamento na Amazônia. Entretanto a espécie é altamente vulnerável a fragmentação florestal e é possível que decline cerca de 50% dentro das três gerações. Depreende-se que a principal ameaça para essa espécie é o desflorestamento acelerado, com a abertura de clareiras para criação de gado, produção agrícola ou simples exploração madeireira. O jacu-de-estalo é fortemente suscetível a degradação e fragmentação florestal devido a sua dependência de florestas primárias, além de ser vulnerável à caça e dependente também de mamíferos que são alvos de caçadores, como porcos-do-mato e primatas. A espécie não faz migrações, sendo naturalmente rara.

Para melhorar a situação e a sobrevivência da espécie são necessários estudos sobre seus requerimentos ecológicos e a detecção de potenciais habitats apropriados, com a expansão da rede de áreas protegidas. 

BIP BIP!


Créditos e consultas


https://www.youtube.com/watch?v=PPdklH6t7dI (roadrunner, Robert DuHamel, Youtube)


https://www.youtube.com/watch?v=3hwJsaTr3EY (jacu-de-estalo ReBio Sooretama, Guilherme Cavicchioli, Youtube)




terça-feira, 25 de abril de 2017

DIA MUNDIAL DOS PINGUINS

DIA MUNDIAL DO PINGUIM

Hoje 25 de abril é o dia mundial dos pinguins. Acho que muita gente não sabe disso.Entretanto parece que não há muito que comemorar se considerarmos que mais da metade das espécies de pinguins encontram-se ameaçadas.



Entre as ameaças está redução de suas fontes de alimento. Os pinguins alimentam-se de peixes e o homem também. Até aí tudo bem, só que o pinguim mergulha e pega um peixe de cada vez com o bico. Já o homem usa redes de arrasto com 100, 200, 300 ou mais metros de comprimento, além dos espinheis, que são linhas de pesca quilométricas, nas quais são colocados anzóis iscados com peixes, lulas, etc. para capturar peixes maiores como os atuns, por exemplo. Ocorre que os pinguins acabam presos nas redes onde morrem afogados, ou fisgados nos anzóis dos espinheis, onde também morrem afogados. Situação semelhante ocorre com os albatrozes.


http://www.conhecer.org.br/enciclop/2013b/CIENCIAS%20BIOLOGICAS/A%20captura.pdf


Além disso, seus locais de nidificação tradicionais estão sendo reduzidos drasticamente por empreendimentos de prospecção, ocupação desordenada, entre outros problemas como os acidentes com derrame de petróleo no mar.


Não acabou. A presença de pesticidas e metais pesados no ambiente marinho acaba afetando os pinguins, através do processo de biomagnificação. Peixes bem pequenininhos comem plancton contaminado. Um peixe maiorzinho come dois ou três pequenininhos, e por sua vez é comido por um maior ainda que come mais uns dois ou três até chegar no pinguim que acaba tendo em seu organismo uma quantidade grande do metal pesado. Hoje o correto é chamar metal pesado de elementos traço (assim mesmo: plural e singular). Podemos entender o que ocorre como uma transferência de uma substância estranha ao meio biótico, de um alimento (presa) para outro organismo geralmente maior (predador), resultando em maiores concentrações no predador que na fonte de alimento.


Veja o vídeo “Walk with penguins” produzido pelo BirdLife International sobre os pinguins. Tem recurso de 360º. E um som bem legal. Utilize o fone de ouvido para melhorar a experiência. Tem uma cena na qual eles tomam banho de chuveiro natural. A água escorre da pedra como se fosse um chuveiro, e eles entram embaixo para tomar banho.


https://www.youtube.com/watch?v=oM7Su9SmxBE&mc_cid=846c68b5ce&mc_eid=da69fe5ea8

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Quem mora aqui em Niterói e no Rio de Janeiro já está acostumado com a presença do pinguim-de-Magalhães nas praias.Em janeiro de 1995, outra espécie de pinguim, o pinguim-rei, chegou à praia de Saquarema (22o56’S,42o30’W) na região dos Lagos. O indivíduo foi resgatado pelo Corpo Marítimo de Salvamento dos Bombeiros em bom estado de saúde e foi entregue aos cuidados do Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, onde foi atração durante um bom tempo.


http://www.ao.com.br/ao64_4.htm



Quer saber mais sobre os pinguins ameaçados? Leia em:


http://www.birdlife.org/list-penguin-species



sexta-feira, 17 de março de 2017

ATRAINDO AS AVES PARA JARDINS E QUINTAIS

ATRAINDO AS AVES PARA JARDINS E QUINTAIS

Uma das formas de tornar mais fácil a observação das aves é fazer com que elas se aproximem de locais previamente escolhidos e sintam-se seguras de tal forma que aceitem nossa presença naturalmente.

Coereba flaveola no bebedouro para beija-flores

Os quintais e os jardins das residências ou mesmo as grandes áreas comuns dos modernos condomínios residenciais são locais onde facilmente consegue-se instalar comedouros, bebedouros e ninhos artificiais para atração das aves. Um jardim ou um quintal são pequenos ecossistemas encravados dentro das áreas urbanas das cidades, e nos proporcionam um local para conexão com a natureza e relaxamento. De forma semelhante a avifauna busca nesses espaços oportunidades de alimentação e abrigo. Algumas pequenas modificações podem tornar os jardins e quintais mais atrativos para as aves, que em troca conferirão cor, som e movimento ao local e, além disso, as pequenas aves irão ajudar a controlar pragas das plantas comendo lagartas, pulgões, e até mesmo os pequenos caramujos de jardim, enriquecendo o próprio cardápio e livrando as plantas de hóspedes indesejáveis.



Entretanto, antes de qualquer coisa, pense em privilegiar um ambiente natural, com espécies de plantas que atraiam as aves, por oferecerem alimento ou abrigo. Um jardim sem frutas e flores pode até ser um local de descanso, mas pode ser muito mais que isso com plantas frutíferas.

Guabirobinha-da-restinga

Árvores que produzem frutos pequenos geralmente são as favoritas, tais como o araçá, a uva-do-Japão, jabuticaba, pitanga e a amora. Aroeira e fruta-de-sabiá são indispensáveis. As goiabeiras e mamoeiros, embora tenham frutos maiores, também são bastante apreciadas. 

Fruta-de-sabiá, também conhecida como marianeira.

As plantas com ramagem densa e ramificada são próprias para fazer ninhos, e as espécies de flores nectaríferas como os hibiscos e o camarão são atrativas para os beija-flores. Plantas que florescem o ano inteiro garantem a presença constante dessas aves.

Aroeira pimenteira com frutos. Atrai sanhaços, saíras, tiés, sáis, gaturamos e sabiás.

Se as plantas que fornecem alimento frutificarem ou florescerem no inverno, será ainda melhor, visto que nessa época geralmente a oferta de comida é escassa e o jardim se tornará um ponto de referência para as aves.

Um pequeno lago é bastante atrativo para as aves, além de embelezar o jardim.

Muitas aves tomam banhos de areia, que ajudam a eliminar os ectoparasitas. Além disso, eles precisam ingerir alguns grânulos (pedrinhas) regularmente. Estes grãos de areia se alojam na moela, um órgão especial que funciona como dentes, quebrando ou moendo sementes duras, facilitando a sua digestão. Mantenha um local com areia sempre sob o sol, e revire regularmente para manter o material limpo. O sol aquece a areia eliminando microrganismos indesejáveis. É interessante adicionar à areia, farinha de cascas de ovos ou farinha de conchas para tornar a areia uma rica fonte de cálcio.


Os beija-flores são facilmente atraídos por garrafas contendo água açucarada e permitem aproximação suficiente para boas fotos. Entretanto alguns cuidados devem ser tomados na manutenção destas garrafas de forma a evitar-se a proliferação de microrganismos prejudiciais às aves. As garrafas devem ser espalhadas em vários pontos do quintal ou jardim e mantidas sempre nos mesmos locais de forma que as aves não tenham dificuldades para encontrá-las. A alimentação dos beija-flores inclui além do néctar um percentual bastante elevado de artrópodes que eles capturam na vegetação.
         Uma fórmula eficiente é produzida utilizando-se 1 kg de açúcar ao qual acrescentamos um pacote de pó para refresco de morango (25 gramas) e 1 grama de propionato de cálcio (que é um antifúngico). Essa mistura é então utilizada para preparar a solução que será colocada nas garrafas de alimentação, na proporção de cerca de seis colheres de sopa para um litro de água fervida e filtrada. Se não for utilizada de imediato a solução deve ser mantida na geladeira.
           Para obter a coloração vermelha pode ser usada a beterraba, ao invés do pó para refresco. Parta uma beterraba média em oito pedaços e coloque dentro de uam vasilha com 2 litros de água filtrada e ponha na geladeira. Acompanhe a mudança na coloração e passe a utilizar quando atingir uma coloração avermelhada não muito forte. Os demias passos são os mesmos de quando utilizar o pó para refresco de morango.
         As garrafas devem ser lavadas diariamente com detergente neutro e enxaguadas com uma solução de hipoclorito de sódio a 2% (20 ml de água sanitária em 1 litro de água) e em seguida receber um novo enxágue com água pura para ser posta a secar de preferência ao sol. Uma vez por semana as garrafas devem ser submetidas a um tratamento com hipoclorito de sódio a 5% (50 ml de água sanitária em 1 litro de água) mantendo-as submersas durante 24 horas, sendo posteriormente esfregadas com escova para retirar as crostas que tendem a se formar em torno dos orifícios de alimentação. O ideal é que existam dois conjuntos de garrafas. Enquanto um conjunto estiver em uso o outro será submetido à limpeza e desinfecção. Com estes cuidados simples garantiremos que nossos visitantes estejam sempre saudáveis.

Bebedouro muito bonito, mas pouco prático

Outras aves como as chiquitas (Coereba), os saís azuis (Dacnis), algumas saíras (Tangara) e até gaturamos (Euphonia) costumam aparecer também para compartilhar as garrafas com os beija-flores. Em algumas ocasiões é necessário aumentar o número de garrafas para evitar as brigas entre os consumidores.
As formigas e as abelhas também costumam frequentar as garrafas, mas não deve ser motivo de preocupação, a não ser que o número seja muito elevado e possa vir a prejudicar as aves ou mesmo causar acidentes com as pessoas. Para evitar o acesso das formigas basta colocar um algodão embebido em óleo no fio que sustenta a garrafa de forma que constitua uma barreira física pegajosa no caminho das formigas. As abelhas e os maribondos são mais difíceis de controlar.
Nunca use inseticidas!
As garrafas costumam ser visitadas à noite pelos morcegos comedores de néctar, o que também não constitui um problema. Entretanto, se quiser a visita dos morcegos basta retirar as garrafas ao entardecer.
         Existem diversos modelos de garrafas (alimentadores) para beija-flores disponíveis no comércio, e fabricados com vidro ou plástico. É bom ter em mente que quanto mais simples for a garrafa mais fácil será a manutenção.

         Para os comedores de sementes como os pardais (Passer), canários da terra (Sicalis), coleirinhos (Sporophila), rolinhas (Columbina) é necessário construir um alimentador que seja seguro contra predadores domésticos, especialmente os gatos.
         O alimentador para este grupo de aves deverá ser construído com um poste de madeira com cerca de 1,50 m de altura e 10 a 15 cm de diâmetro sobre o qual será afixada uma casinha com de 30 cm X 40 cm, também de madeira sem paredes e com telhado de alumínio ou folha de PVC para proteger as sementes. O poste deverá ser completamente envolvido com arame farpado desde a base até o topo de forma a evitar que os gatos ou mesmo ratos e gambás possam subir até a casinha.
         No assoalho da casinha serão colocados os comedouros plásticos contendo as sementes (uma mistura com cerca de 50% de alpiste, 10% de milho alvo, 10% de aveia, 10% de nabão e 20% de quirera de milho). Esta mistura deverá ser investigada periodicamente de forma a se descobrir a preferência da clientela alada e então adequar as sementes que a comporão. As sementes mais ricas em gordura como a aveia, a linhaça e o girassol deverão entrar em maior proporção durante o inverno.
         Os comedouros plásticos deverão ser lavados diariamente da mesma forma que os alimentadores de beija-flores, sendo também ideal a utilização de dois conjuntos para o revezamento.

         Comedouro plástico tipo lanterna fixado sobre estaca

         A casinha com os comedouros poderão também ser suspensos por um fio nos galhos de uma árvore, com um sistema de roldanas que torne fácil suspender e baixar a casinha diariamente para a troca das sementes e limpeza.
         Existem no comércio especializado alimentadores para colocação de sementes, construídos de plástico em formatos variados. Têm a desvantagem de exigirem um abrigo contra as chuvas, ou a construção de um telhado de alumínio ou PVC encaixado no fio que fixa o comedouro na árvore.
         O mesmo sistema de fios suspensos em um galho poderá ser utilizado para a colocação de banheiras com água, que também deverá ser trocada diariamente ou mesmo duas vezes ao dia durante o verão.

         Comedouro plástico tipo lanterna pendurado na acácia.

          Para as aves frutívoras como sabiás, sanhaços e saíras o sistema utilizado é o mesmo descrito para as granívoras, sendo então colocados pedaços de frutas (banana, mamão, goiaba, laranja, etc.) nos comedouros plásticos.
         As aves de alimentação onívora como os bentevís (Pitangus), siriris (Tyrannus), lavadeiras mascaradas (Fluvicola), pica-pau-anão (Picumnus) sempre estarão por perto, e podemos adicionar um comedouro em uma das casinhas contendo larvas do besouro da farinha (Tenebrio molitor) ou mesmo minhocas que serão avidamente disputadas por todos os comensais sejam eles insetívoros, frutívoros ou granívoros.

         Bebedouro para beija-flor e bandeja de aramecom frutas.

          Muitas aves utilizam cavidades naturais para fazerem seus ninhos. Buracos nos troncos das árvores, saliências entre as rochas, enquanto outras constroem os ninhos nos galhos das árvores, utilizando os mais diversos materiais na construção. A proximidade do homem fez com que as aves também aprendessem a aproveitar as oportunidades de novos locais para ninhos, como por exemplo, as caixas de correio, as saídas de água das chuvas nos muros das casas construídas próximo às encostas dos morros e os vãos entre as telhas e os caibros dos telhados. Em função desta capacidade de aproveitar novos locais para nidificação podemos fornecer às aves algumas opções a mais em nossos jardins e quintais. Materiais como cascas de coco vazias, pedaços de canos de PVC, pedaços de bambu aberto em um dos lados e mesmo casinhas de madeira preparadas com esta finalidade. Novamente é importante oferecer segurança às aves durante o período de choco e criação dos filhotes, providenciando para que os ninhos artificiais estejam protegidos contra as chuvas e contra os ataques de predadores.



         É importante lembrar que uma vez iniciado este processo de atração ele jamais deverá ser interrompido de forma brusca, pois poderá provocar mortalidade entre as aves que frequentam este ambiente. Se por qualquer motivo for necessário parar de alimentar e fornecer abrigo para as aves no jardim ou quintal, seja por falta de tempo ou mesmo por haver cessado o interesse, é importante que o processo transcorra de forma lenta, reduzindo gradualmente a oferta de alimentos e água de forma que as aves se afastem naturalmente.
  


Môsar Lemos

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A suindara ainda está lutando para adaptar-se à vida moderna

A suindara ainda está lutando para adaptar-se à vida moderna


Amada por uns, odiada por outros, a coruja-das-torres, coruja-dos-celeiros ou suindara continua procurando se adaptar aos ambientes antropizados.




Na Inglaterra, pesquisas recentes sobre as áreas de nidificação indicam que os fatores que destruíram 70% das corujas-das-torres no século 20 ainda afetam a espécie.




 Uma das aves de rapina mais difundidas no mundo, a coruja-dos-celeiros Tyto furcata provou ser tão bem sucedida em adaptar-se à vida ao lado dos seres humanos que até mesmo o seu próprio nome reflete a relação simbiótica que tem sido compartilhada por agricultores e esta ave carismática ao longo do curso de centenas de anos.

As suindaras preferem viver e aninhar em locais abrigados que as protegem dos elementos, e quando os homens começaram a construir nas áreas rurais, as corujas rapidamente aproveitaram a oportunidade, trocando fendas nas rochas e buracos em árvores por salões confortáveis nos sótãos de celeiros e igrejas. Em troca as suindaras pagam aos seus hospedeiros involuntários, capturando ratos e camundongos que se aventuram em suas terras.


Abertura proposital na parte superior de igreja na Alemanha permitindo que as corujas tenham acesso ao átrio para nidificar.


Entretanto, na Inglaterra em meados do século 20, as mudanças na dinâmica da relação entre humanos e corujas rapidamente provocaram um declínio acentuado nas populações de corujas britânicas. Segundo o “Barn Owl Trust”, uma instituição conservacionista do Reino Unido, a população da espécie no país diminuiu em até 70% entre 1932 e 1985.




A redução nas populações é em grande parte o resultado de melhorias na forma como os agricultores cultivam as suas terras. A ceifeira-debulhadora, que é extremamente eficiente na colheita de grãos, e o desenvolvimento de silos de grãos fechados eliminaram o armazenamento de grãos em cercados em terras agrícolas, significando menos alimentos para roedores durante os períodos mais frios do ano e consequentemente menos presas para as corujas. Os agricultores modernos também são capazes de cultivar terras que estavam anteriormente além da capacidade de seus equipamentos e ferramentas, permitindo-lhes arar até as bordas das florestas, resultando na perda do habitat de caça preferido da coruja-dos-celeiros.



A população da coruja-dos-celeiros declinou 70% durante o século 20, na medida em que as práticas agrícolas intensivas, como desmatamento, uso de defensivos e fertilizantes, redução nas populações de presas, cobraram seu pedágio sobre as aves.

O século 20 também trouxe outros perigos como as mortes nas estradas, potentes venenos para controle de roedores e a perda de pontos de nidificação como os celeiros tradicionais que são derrubados e substituídos por prédios de concreto, menos convidativos e sem nenhuma chance de fendas para nidificação.






Há evidências de que o número de corujas no Reino Unido se estabilizou desde meados dos anos 90, mas claramente os fatores de declínio ainda estão impactando as populações de corujas. Embora a população britânica desta espécie reclusa e noturna seja mal compreendida, vem sendo determinada a saúde da população de corujas-dos-celeiros no país através da pesquisa anual de ninhos realizada pelo “Barn Owl Trust”, na qual 32 grupos independentes de todo o país trabalham juntos para visitar locais de nidificação e registrar o tamanho das ninhadas de parelhas reprodutoras bem sucedidas.



Os resultados apontaram outro ano ruim para as corujas. O número de casais nidificando em 2016 reduziu 6% em relação a média dos anos anteriores, e o número de jovens no ninho reduziu 7%. Embora decepcionante, os números são, pelo menos, melhores em relação a 2013 e 2015, anos em que o clima frio reduziu os ninhos ativos a 70% e 25% em relação a média de todos os outros anos. A baixa produção de filhotes está claramente se tornando uma tendência, que o “Barn Owl Trust” atribui à falta de presas disponíveis e uma baixa densidade populacional global exacerbada pela falta de corujas juvenis para substituir os adultos.


A situação recomenda várias medidas para ajudar a sustentar o número de corujas-de-celeiro, incluindo a melhoria do habitat, a instalação de telas de prevenção de voo baixo em torno de estradas principais para evitar colisões e substituição dos ninhos artificiais existentes para reduzir a mortalidade de filhotes.




Links





Veja a reportagem completa no site do "The Barn Owl Trust"

http://www.barnowltrust.org.uk/barn-owl-facts/current-uk-barn-owl-population/