quinta-feira, 1 de março de 2018

DO ASIL AO CHESTER; UMA HISTÓRIA GALINÁCEA


DO ASIL AO CHESTER: UMA HISTÓRIA GALINÁCEA

Môsar Lemos

Na correria diária a carne de frango é atualmente uma opção para muitas pessoas no preparo das refeições. Além do preço acessível, a facilidade de preparo e a disponibilidade da ave congelada em cortes de peito, coxas e asas, é um atrativo que levou a carne de frango a posição de carne mais consumida no Brasil, com uma média de 40 Kg por pessoa por ano. Entretanto a maioria das pessoas desconhece o longo caminho percorrido pela galinha até chegar ao franguinho congelado na gondola do supermercado. A maioria nem lembra que o bicho tem penas.

O ASIL RAJAH MURGUI

            O Asil pode ser considerado a maior joia da criação indiana, especialmente o Rajah-Murghi ou galo do Rajá. Sob o nome Asil são identificadas na Índia inúmeras castas de galos que apresentam mais ou menos o mesmo tipo, quer em conformação anatômica, quer em qualidades para combate. A origem da palavra é árabe e significa um alto grau de nobreza. Podemos definir Asil como denominação para uma única raça, entretanto existem inúmeras linhagens que apresentam muitos pontos em comum. O genuíno Rajah-Murghi é de pequena estatura e seu peso não vai muito além de 2,5 Kg. São de bela aparência e possuem todos os requisitos indispensáveis para serem considerados os melhores combatentes do mundo. Combatem até a morte, possuindo resistência sobrenatural ao castigo e golpeiam com extrema precisão.
A raça Asil Rajah Murghi originária da Índia é uma das mais antigas do mundo e contribuiu com seus genes para a raça Cornish, sabidamente a base genética para a formação do moderno frango de corte. De baixa estatura, musculatura do peito larga e coxas grossas o macho pesa cerca de 3,0 kg e é conhecido como um “buldogue” de penas.

Macho da raça Asil Rajah Murghi, de plumagem pintada (preto e branco). Bico curto, ausência de barbelas proeminentes, pele da cara enrugada (conhecido como cara de sapo), tarso metatarso com três fileiras de escamas ao invés de duas, conferem a esta raça algumas características especiais.


Extremamente resistente esta raça é utilizada na Índia e em outros países pelo mundo afora como galos de combate, em sua forma pura ou em cruzamentos com outras raças às quais confere resistência e força muscular e uma capacidade de suportar os castigos infligidos pelo adversário de forma estóica jamais abandonando o campo de peleja.


A RAÇA CORNISH

Estas características fizeram com que os fenícios, hábeis navegadores e comerciantes, levassem o Rajah Murghi em seus navios em suas longas viagens. Costumavam deixar algumas aves nos povoados que visitavam de forma a garantir que quando retornassem pudessem encontrar aves disponíveis para comerciar. Ocorreu que em uma dessas viagens galos Asil Rajah Murghi foram deixados na região da Cornualha, Inglaterra, onde foram acasalados pelos moradores locais com as galinhas da terra. Nesta época já havia na Inglaterra o protótipo do Old English Game, uma raça banquivóide, utilizada como ave combatente. O cruzamento do Asil com estas galinhas deu origem ao que é hoje a raça Cornish, pesada, musculosa, com plumagem enxuta, com boa carcaça ideal para ave de mesa. Acredita-se que a formação do Cornish atual contou com a participação dos genes da raça Malaia. A raça Cornish variedade Dark também é conhecida como “Combatente Indiano”, embora o nome Cornish seja o mais correto. Uma característica que distingue a Cornish é o fato do corpo do macho e da fêmea apresentar a mesma conformação. A crista tem a forma de feijão. A textura das penas é outra característica marcante na raça. A plumagem do corpo deve ser adequadamente encaixada, com penas curtas, duras e perfeitamente estreitas. 



Acima macho da raça Cornish na variedade Dark. O corpo é compacto e musculoso, as pernas são curtas como no Asil, entretanto a cauda ligeiramente vertical mostra a presença do sangue banquivóide. Observa-se na fêmea abaixo um padrão corporal semelhante ao do macho, característica herdada do Asil.


Cornish fêmea

A Cornish Dark foi admitida ao “American Poultry Association Standard of Perfection (APASP)” em 1893.   A Cornish White foi produzida a partir do cruzamento da Cornish Dark com o Malaio Branco em 1890, e admitida ao APASP em 1898.   A Cornish Laceada Vermelha e Branca foram produzidas na América em 1898, a partir do cruzamento da Cornish Dark com o Shamo Japonês e transformou-se em uma variedade padrão em 1909. A Cornish foi desenvolvida como uma ave definitiva para a produção de carne e tem contribuído com seus genes para constituir a vasta indústria do frango de corte do mundo, sendo apreciada em função de sua grande quantidade de carne branca de textura refinada. Seu desenvolvimento e distribuição muscular dão uma excelente conformação de carcaça. Tem a pele de coloração amarela e põem ovos de casca marrom. Os galos chegam a pesar 5,250 kg e as galinhas em torno de 4,0 kg. A Cornish tem um corpo amplo e bem musculoso. Suas pernas são bem separadas e de diâmetro considerável. Os olhos aprofundados, fronte projetada e bico forte ligeiramente curvado dão à raça uma expressão mais ou menos cruel. Os machos são frequentemente agressivos, e os pintinhos tendem a ser mais canibais que outras raças. Uma boa Cornish é uma ave sem igual e impressionante para ser admirada. As penas são curtas e bem assentadas ao corpo e podem apresentar algumas áreas de pele nua. Precisa de uma proteção adequada nos meses mais frios, pois suas penas apresentam menor isolamento que o observado na maioria das outras raças. Devido à conformação, normalmente a fertilidade é baixa e algumas linhagens exigem inseminação artificial. São aves atletas que necessitam de espaço para exercitar e desenvolver a musculatura. Os machos velhos acabam tendo problemas nas pernas se não se exercitam adequadamente. As fêmeas entram em choco, mas apesar de serem boas mães, são muito ativas para serem boas chocadeiras, e a plumagem escassa dificulta a ave cobrir os ovos.

Sob o ponto de vista de seleção e melhoramento para a produção avícola é de fundamental importância que estas duas raças sejam preservadas pelo maior número possível de criadores, como bancos de material genético.

O FRANGO-DE-CORTE


Com o advento da avicultura industrial a busca por uma ave com capacidade de produzir muita carne em curto espaço de tempo levou a formação do moderno frango de corte que atinge os 2,5 kg aos 42 dias de idade, através de um árduo trabalho de melhoramento genético que teve com base a raça Cornish.

O CHESTER

O Chester foi desenvolvido pela empresa Perdigão na década de 70 como forma de abocanhar uma fatia do mercado de aves grandes no período das festas natalinas, já que a empresa Sadia mantinha o monopólio da comercialização de perus no Brasil. Ao contrário do que muita gente pensa o Chester não é um monstro sem pés e sem cabeça que se arrasta pelo chão enquanto engorda assustadoramente. O Chester nada mais é que uma linhagem de frango de corte com características próprias para competir com o peru. Enquanto as linhagens convencionais de frango de corte (COBB, etc) atingem 2,5 kg de peso aos 42 dias de idade, o Chester é capaz de chegar aos 4,0 kg com 65 dias. O seu nome vem da palavra inglesa “chest” (peito), em função de uma das principais características da ave que é uma grande massa muscular peitoral. As avós da nova linhagem chegaram ao Brasil em 1979, porém o Chester só começou a ser comercializado em 1982, após um intenso trabalho de seleção e cruzamentos entre as linhagens importadas. Hoje, 30 anos depois, o Chester é uma opção rotineira tanto na época do Natal, como fora dela, e muitas vezes ao lado do peru na mesma mesa.


Viu? Não é nenhum monstro! É um frangão grande e gordo!

Do Asil ao Chester: uma história galinácea